EUA em ebulição: a revolta em Wisconsin
O blog Outra Economia inaugura uma nova seção, de entrevistas exclusivas, com pesquisadores interessados na crítica ao status quo, e em apontar novos caminhos para organizar a sociedade e a economia. Marcelo Milan¹, do departamento de Economia da UFRGS, e professor visitante na Universidade de Wisconsin (EUA), discute aqui a rebelião popular contra o neoliberalismo em um remoto estado norte-americano, mas que tem impactos importantes tanto do ponto de vista eleitoral bem como em relação à real participação da sociedade nas decisões de política econômica desse país.
OUTRA ECONOMIA. Wisconsin, estado no centro-norte dos EUA, vive um momento de grande contestação popular, em resposta ao anúncio de cortes massivos no orçamento do governo para, supostamente, enfrentar a crise fiscal. A revolta poderá conter as intenções do governador Scott Walket, do Partido Republicano?
MARCELO MILAN. Pelo que tenho acompanhado, não. O governador está determinado a impor sua agenda anti-trabalho e anti-sindicatos públicos. As manifestações são contra estas medidas, que retiram todo e qualquer direito a negociações coletivas por parte dos funcionários públicos. Scott Walker inicialmente defendeu as medidas como necessárias para se equilibrar o orçamento (nos EUA, ao contrário do governo federal, os estados não podem ter déficits). Como os senadores do Partido Democrata se recusaram a participar e dar quórum para as votações do orçamento (saíram do estado por alguns dias), que exigem quórum, os conservadores votaram as medidas anti-trabalho em separado. A decisão, e principalmente a forma como foi votada, está sendo contestada na justiça. Isso deixa claro que a perseguição aos funcionários públicos não tem nada a ver com o equilíbrio orçamentário.
“O governador de Wisconsin é meramente um fantoche a serviço das grandes empresas”
Além do mais, foi amplamente divulgado um trote que passaram no governador. Um ativista ligou para o governador, fazendo-se passar por um dos irmãos Koch (dois milionários de extrema direita de Kansas que financiam ações e medidas contra trabalhadores, sindicatos e outras organizações progressistas). Este prontamente recebeu a ligação e confessou que se tratava de um ataque organizado à classe trabalhadora de Wisconsin. Ou seja, o governador é meramente um fantoche a serviço das grandes empresas. Um outro senador do partido republicano confessou em entrevista que os ataques aos trabalhadores e suas organizações fazem parte de uma estratégia nacional de enfraquecimento das organizações que apóiam o Partido Democrata. Ou seja, fica claro que a necessidade de se equilibrar o orçamento foi apenas uma desculpa para atacar os trabalhadores e os sindicatos. Por outro lado, a população em geral, e não apenas os setores organizados pelos sindicatos, e muitas outras organizações, incluindo igrejas e agricultores familiares, artistas, ativistas, políticos e intelectuais se uniram e passaram a realizar grandes passeatas na capital do estado, Madison. Mas dificilmente o governador vai voltar atrás. As mesmas medidas estão sendo tomadas em outros estados (o que novamente mostra que a questão orçamentária não é de nenhuma importância), com apoio da extrema direita que cresce rapidamente (o chamado partido da festa do chá [tea party], em referência às revoltas em Boston contra o imposto do chá cobrado pela coroa britânica nas colônias americanas).
OUTRA ECONOMIA. Muito se fala sobre o declínio final do sindicatos no mundo do trabalho, e, em especial nos EUA. Qual tem sido o papel das organizações trabalhistas nesta mobilização popular?
MARCELO MILAN. Os sindicatos estão tendo um papel fundamental na organização das manifestações e outras formas de protesto, dentro das possibilidades dos mesmos. Os mais atuantes, por incrível que pareça, são os sindicatos dos policiais e dos bombeiros, que não foram afetados pelas medidas! Depois vem o dos professores secundários e o das enfermeiras. Mas muita atividade contra o governador é espontânea, sem liderança. Muitos conservadores se colocaram contra as medidas por considerá-las injustas e equivocadas. Mas é evidente que a sociedade civil está à frente das manifestações.
“A crise fiscal nos EUA é resultado da Grande Recessão de 2007-2009, criada pelas políticas neoliberais impostas pelos conservadores”
Algumas formas de protesto são muito interessantes. Por exemplo, existe um chamado a boicotar as empresas que contribuíram para a campanha de Scott Walker. O banco Marshall e Island [M&I] foi um dos principais contribuintes, e também um dos mais atingidos pelos protestos, tendo de fechar as portas de agências após retiradas massivas de depósitos por manifestantes. O co-piloto do famoso vôo que aterrissou no Rio Hudson, em Nova Iorque, fez questão de declarar seu apoio aos trabalhadores e retirar seu dinheiro do banco M&I (pilotos e co-pilotos de muitas empresas são representados por fortes sindicatos nos EUA). Outras medidas envolvem destituir os senadores republicanos (após um ano, todo político pode ser destituído por apelo popular em Wisconsin). De qualquer forma, parece que os sindicatos são muito tímidos. Existe um medo generalizado de se falar em greve. Esse é um dos problemas de uma sociedade onde o individualismo é tão arraigado (mas não absoluto). Eu imagino o que aconteceria se esses ataques contra os trabalhadores tivessem ocorrido na França…
E esses ataques contra os sindicatos revelam algo interessante sobre o mundo do trabalho nos EUA. Apesar da reduzida densidade sindical (menos de 10% dos trabalhadores no setor privado, e cerca de 25% no setor público, são representados por sindicatos), estas organizações são extremamente poderosas, por mobilizarem muito dinheiro (e explica a declaração do senador republicano sobre a necessidade de se fechar esta torneira para financiar o Partido Democrata). Os sindicatos investiram pesado na eleição de Obama, e quando o Partido Democrata tinha maioria no congresso e no senado, não aprovou a lei de livre escolha dos empregados (Employee Free Choice Act). Esse erro se mostrou fatal politicamente, e agora os conservadores estão contra-atacando de forma massiva. Resta saber se os sindicatos, fortalecidos, fariam mais em favor dos trabalhadores. Existe uma forte burocracia sindical, muitas vezes descolada das necessidades dos trabalhadores. Fizeram muitas concessões às empresas, e agora existe um claro declínio da classe média nos EUA, em parte como resultado dessa opção (mas não apenas). Existe um livro excelente sobre o assunto, escrito por Paul Buhle, Taking Care of Business: Samuel Gompers, George Meany, Lane Kirkland and the Tragedy of American Labor (Cuidando das Empresas: Samuel Gompers, George Meany, Lane Kirkland e a tragédia do trabalhismo nos EUA). Ele mostra como as lideranças sindicais passaram a se preocupar mais com as empresas do que com os trabalhadores, tendo em vista seus próprios benefícios pessoais, com o resultante declínio do poder de barganha da classe trabalhadora. Ou seja, lideranças pelegas à la Forca Sindical, burocratismo e falta de suporte para a base, levaram ao enfraquecimento da classe trabalhadora, e agora os conservadores buscam por todos os meios a cartada final. Não surpreende portanto a revolta da população contra as medidas, mas tudo isso poderia ser evitado se as lideranças sindicais e políticas tivessem de fato uma preocupação com os trabalhadores e fossem mais enérgicas e atuantes.
OUTRA ECONOMIA. Um dos argumentos utilizados pelos governos que adotaram o ajuste recessivo como saída para a crise fiscal é que este seria o único caminho para equilibrar as contas públicas. Mas porta-vozes e simpatizantes dos manifestantes, dentre eles o cineasta Michael Moore, sustentam que é preciso também olhar para o lado das receitas orçamentárias. Como está o debate sobre a reforma tributária nos EUA?
MARCELO MILAN. Não existe debate algum sobre reforma tributária. George Bush reduziu ainda mais os impostos dos multimilionários e das corporações e estas medidas foram estendidas até o final de 2012, com cortes adicionais para o resto da população. Barack Obama queria pretensamente aumentar os impostos dos milionários, mas não teve apoio para fazê-lo. Alguns milionários como Warren Buffet reconhecem que pagam poucos impostos e estão liderando uma campanha pelo aumento da progressividade do imposto de renda. E hoje se reconhece que muitas empresas gigantes, como a General Electric, tem lucros astronômicos, mas não pagam impostos, seja por criatividade contábil que transfere a geração de renda efetuada nos EUA para outros países, seja por elisão fiscal. Na verdade, a discussão acerca dos déficits reflete opções ideológicas, como não poderia deixar de ser, mais do que formas de se ajustar o orçamento. A crise fiscal dos estados é resultado da Grande Recessão de 2007-2009, criada pelas próprias políticas neoliberais impostas pelos conservadores desde os anos 80, muitas vezes com a ajuda dos democratas, como no caso da desregulamentação do sistema financeiro que acabou contribuindo para a crise financeira. E como qualquer estudante de economia sabe, déficits são resultados esperados do ciclo econômico quando a economia entra em recessão, contribuindo para minorar seus efeitos (os famosos estabilizadores automáticos). O problema é que nos estados os déficits são proibidos por lei, e o equilíbrio é buscado sempre na forma de corte de gastos que aceleram e agravam o movimento recessivo. Em geral, todos os níveis de governo nos EUA se encontram em uma posição financeira frágil. Os impostos sobre os ricos nunca foram tão baixos, enquanto as medidas neoliberais agravam a desigualdade e aumentam a busca por suporte público. O Michael Moore como sempre foi preciso na avaliação da questão fiscal (aliás, o documentário dele sobre o sistema de saúde americano e uma jóia rara).
“O neoliberalismo nos EUA morreu em 2008, durante o derretimento do setor financeiro. Até mesmo Alan Greenspan reconheceu que o neoliberalismo não funciona.”
A opção conservadora é sempre a de cortar os impostos dos ricos, ampliar os gastos militares, e reduzir os gastos públicos com a população carente, como serviços médicos e hospitalares, educação, auxílio alimentação, etc. (o que obviamente tende a gerar déficits maiores, mas este tipo de déficit nunca é contestado pela direita, como mostra a ausência de manifestações contra os déficits de George W. Bush depois dos excedentes orçamentários gerados por Bill Clinton). Como essas políticas levam a uma deterioração dos serviços públicos, os conservadores argumentam que o Estado não funciona, que o governo desperdiça recursos, e que a solução é privatizar (não sem motivo, os irmãos Koch estão de olho na geração de energia elétrica em Wisconsin). Isso aconteceu na privatização dos contratos militares do Pentágono, e se mostrou desastroso após o furacão Katrina em New Orleans, onde serviços de emergência também foram terceirizados. Ou seja, há recursos, há renda e há riqueza, mas não há vontade política de se elevar os impostos do 1% da população que amealhou todos os ganhos de renda nos últimos anos para equilibrar a orçamento (que de qualquer forma é uma quimera em uma economia capitalista que queira se legitimar politicamente, mas não vamos nos alongar nessa questão, lembrando apenas que as revoltas em Wisconsin são parte desta narrativa).
OUTRA ECONOMIA. Como tem sido a mobilização das diferentes comunidades da Universidade de Wisconsin, um dos principais centros de excelência acadêmica dos EUA, diante da ameaça de privatização pelo projeto conservador no estado?
MARCELO MILAN. O sistema das Universidades de Wisconsin está sofrendo grandes modificações. Frente ao massivo corte de gastos na educação, o reitor da Universidade de Wisconsin em Madison solicitou a separação de Madison dos outros campi, para ganhar mais flexibilidade (elevar as taxas acadêmicas para pagar a diferença e cortar gastos). Há muita resistência por parte dos professores, alunos e funcionários a essa medida. Nos outros campi existe uma mobilização muito grande, com manifestações e eventos. Muitos campi estão desafiando o governador e votando a favor da formação de sindicatos para os professores (até recentemente, apenas funcionários podiam se juntar aos sindicatos). Um famoso historiador da Universidade de Wisconsin em Madison, William Cronon, está sendo perseguido por revelar que os irmãos Koch são apenas a ponta do iceberg, e que na verdade todos estes ataques contra os trabalhadores são também originados do conselho de troca legislativa dos EUA, um grupo ultra-conservador que cria leis anti-trabalho e anti-sindicato para serem votados nos diferentes poderes legislativos em todo o país. Sobre as privatizações, como disse na questão anterior, este é um projeto que não pode ser descartado. Se o plano do governador não for obstruído na justiça, a conseqüência será a deterioração do sistema educacional em Wisconsin, em todos os níveis. E serviços públicos que não funcionam a contento (e nem poderiam) são sempre um alvo para o setor privado. Obviamente isso pode ocorrer de uma forma pouco visível, com ampliação das parcerias, aumento na orientação comercial das pesquisas, etc. Isso vai contra a tradição progressista de Wisconsin. Paul Buhle (novamente!) organizou um livro sobre a nova esquerda (dos protestos estudantis e movimento pacifista) em Madison, de 1950 a 1970 (History and the New Left, Madison, Wisconsin, 1950-1970). E tudo começou bem antes, com o socialismo ‘de esgoto’ em Milwaukee (dados os excelentes serviços públicos, e principalmente da rede de esgoto na cidade nos anos 30, introduzidos por prefeitos socialistas no início do século) e as reformas introduzidas pelo republicano ‘Beto Lutador’ La Follete, um dos primeiros políticos a se manifestar contra a influência corporativa em governos democráticos.
OUTRA ECONOMIA. A revolta de Wisconsin, na medida em que se espalha para outros estados norte-americanos, pode ser encarada, de um ponto de vista mais global, como uma mudança de paradigma na luta de classes nos EUA, e o prenúncio de uma revolta nacional contra o neoliberalismo?
MARCELO MILAN. O neoliberalismo nos EUA morreu em 2008, durante o derretimento do setor financeiro. Até mesmo Alan Greenspan, do alto de sua experiência de anos e anos à frente do banco central americano, reconheceu que o neoliberalismo não funciona em um famoso testemunho ao Congresso. A mobilização popular em Wisconsin e em outros estados é contra as tentativas da classe dominante de transferir os custos da crise derradeira do neoliberalismo aos trabalhadores, além da tentativa desesperada de ressuscitá-lo tal qual um zumbi em uma forma ainda mais selvagem, em que mesmo direitos básicos de negociação são negados. Obviamente, o processo não é linear e há idas e vindas, ganhos e perdas, mas a tendência é de uma agudização crescente da luta de classes nos EUA, e a classe trabalhadora de Wisconsin sempre foi pioneira na defesa dos seus interesses e na influência sobre os movimentos dos trabalhadores de outros estados. E cabe notar que a revolta nos EUA e inevitável, pois não há mais onde apertar. Renda e riqueza estão concentradas em níveis só vistos um pouco antes da eclosão da Grande Depressão dos anos 30. As inovações tecnológicas dos anos 90 permitiram ganhos enormes de produtividade, mas os ganhos foram totalmente canalizados para os 10% mais ricos. Para a maioria da classe média e da população pobre, a renda real está estagnada há 30 anos, e para manter o mesmo nível de consumo agora é preciso ter duas fontes de renda em cada lar, com longas jornadas de trabalho (Marx diria que há criação de mais valia relativa, mas também absoluta!) e principalmente muitas formas de crédito. O endividamento familiar explodiu nas ultimas décadas, e é outro componente da crise financeira. Os custos com saúde crescem de forma explosiva e descontrolada, e mesmo as empresas com altos lucros estão tendo dificuldades em prover seguro saúde como benefício. Exigir ainda mais sacrifícios deste segmento da população, enquanto a riqueza nos estratos mais elevados só faz aumentar, é uma provocação que não poderia ficar sem respostas a altura. A classe média em declínio e os pobres em expansão nos EUA estão sofrendo o mesmo processo imposto a trabalhadores de outros países, de corrosão do poder de compra e eliminação de conquistas trabalhistas. O paralelo com o que está acontecendo no Oriente Médio é inevitável, com as necessárias mediações e qualificações. O surpreendente no caso de Wisconsin e outros estados dos Grandes Lagos é que esse processo está ocorrendo em uma sociedade onde há eleições relativamente livres (não se pode esquecer a fraude da recontagem de votos na Flórida em que Bush foi eleito, apesar de Al Gore ter tido a maioria dos votos). Há sem dúvida uma mudança de paradigma, onde o processo eleitoral se mostra insuficiente para reverter a situação (novos partidos de esquerda, como o Partido das Famílias Trabalhadoras [Working Families Party], ainda são muito incipientes e também são um reflexo desta trajetória), políticos e lideranças sindicais são cooptados por grandes corporações, principalmente financeiras, e as ruas se mostram a única alternativa viável para protestar (mesmo o frio de Wisconsin não impediu a proliferação das manifestações). Estamos entrando em um período de grandes transformações e desafios, com grandes possibilidades reais de mudança.
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¹ Marcelo Milan, professor de Economia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é bacharel e mestre em Economia pela Universidade de São Paulo, doutor em Economia pela Universidade de Massachusetts em Amherst. Atualmente é professor visitante na Universidade de Wisconsin.

