Promover a equidade social é o maior desafio para o país
Apesar do crescimento econômico, política de juros trava redução da desigualdade
A evolução do salário mínimo – que cresceu 72% no governo Lula -, o aumento do consumo interno (chave da aceleração econômica), o controle da inflação e a aplicação de políticas anticíclicas, como a ampliação do seguro-desemprego e a redução de impostos diretos e indiretos (Imposto Sobre Produtos Industrializados-IPI, por exemplo), são apontados como fatores determinantes para o crescimento econômico brasileiro nos últimos anos, pelo professor Pedro C. Chadarevian, do curso de Ciências Econômicas da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), campus de Sorocaba. “Se o Brasil continuar crescendo no ritmo atual será a 5ª economia do mundo nos próximos 5 anos”, analisa.
Ele destaca, porém, que apesar de tantos avanços no âmbito econômico e da adoção de programas sociais, como o Bolsa-Família e a ampliação de subsídios para o acesso ao ensino superior, o Brasil ainda tem um grande gargalo: rever a política de juros para reduzir a desigualdade social. “A taxa real de juros penaliza o setor produtivo, sobrevaloriza o câmbio e há incidência desigual do custo do crédito, decorrentes de uma política monetária conservadora”, comenta.
Reformas estruturais
O país tem ainda, pela frente, também, os desafios da política redistributiva, com sérias resistências às reformas estruturais: agrária, tributária e urbana. “Houve retrocesso na reforma agrária; nos países desenvolvidos, há uma valorização do pequeno produtor, diferente do Brasil onde ocorre a migração para a cidade, com o inchaço da população urbana, que gera conflitos sociais e a insegurança coletiva”.
De acordo com o professor Pedro C. Chadarevian, problemas dessa ordem foram atacados de maneira mais contundente pelos países mais desenvolvidos, mas o Brasil faz isso de maneira muito tímida e isso pode representar um obstáculo para a capacidade de crescimento da economia brasileira.
E um dos fatores mais importantes nesse processo é o acesso à educação, principalmente em nível superior, avalia. O Brasil duplicou o número de estudantes nas universidades nos últimos 10 anos, fruto de políticas do Ministério da Educação, mas ocorre que o país está ainda muito distante da realidade do primeiro mundo, são apenas 20% no ensino superior, público e privado, e essa proporção chega a 70% nos países desenvolvidos. “Temos um longo caminho a percorrer e isso exige financiamento e investimento do Estado”.
A análise do professor Pedro C. Chadarevian foi feita durante apresentação da palestra “Crescimento com distribuição de renda. Os anos de ouro do capitalismo brasileiro”, no dia 3 de março, para calouros de Economia da UFSCar-Sorocaba.
Taxar especulações
Destaca o professor que dos países emergentes, Brasil, Rússia, índia e China , o Brasil é o que tem a democracia mais consolidada, superou a crise de 2008 sem grandes dificuldades e agora é um dos que mais cresce e tem um quadro externo mais confortável e uma situação inflacionária sob controle. Avalia, ainda, que o país, está assistindo um rápido crescimento no poder de compra da população, o que acaba também atraindo novos capitais para serem investidos, tanto internos como externos, “mas o país precisa taxar o capital especulativo e promover uma reforma tributária com urgência, porque aqui o mais rico é o que paga menos imposto, enquanto o pobre é penalizado”, argumenta.
Impactos do mundo árabe
O Brasil é um dos maiores investidores nos países árabes (ver quadro), aplicando recursos na ordem de alguns bilhões de dólares, segundo o professor Pedro C. Chadarevian. No processo de internacionalização do capital brasileiro, houve uma priorização no mundo árabe, por conta da concentração de riquezas, de um crescimento econômico visivelmente reconhecido internacionalmente.
Os países árabes, entretanto, têm uma deficiência estrutural muito grande, diz o professor, e o Brasil dispõe de um know-how importante nessa área, tanto na parte de extração de petróleo, com a Petrobrás, como no ramo da construção civil de grandes obras, executadas por empresas como a Odebrecht e Queiroz Galvão, entre outras. Fruto de uma estratégia comercial e diplomática do governo Lula, abrindo caminhos para as empresas brasileiras ao redor do mundo, mas sempre priorizando os países árabes, que são muito ricos.
Os conflitos políticos que vêm ocorrendo naquela região, no entanto, já trazem impactos negativos para o Brasil, avalia o professor, o país teme pelos recursos investidos ali, mas ao mesmo tempo tomou uma decisão corajosa, sendo um dos primeiros a criticar publicamente e com repúdio a postura ditatorial de Mubarak e de Kadafi.
Em termos econômicos e financeiros esses impactos podem ter uma proporção muito maiores, mas de forma indireta, segundo o professor Chadarevian. Se houver um acréscimo muito alto no preço do petróleo, isso irá impactar nas contas brasileiras. A crise do petróleo nos anos 70 teve um efeito devastador no Brasil, porque o país naquela época tinha uma vulnerabilidade externa muito maior; hoje está numa posição mais confortável, mas mesmo sendo autosuficiente na produção de petróleo, será impactado, porque o aumento do produto pode elevar a taxa de juros internacional, alerta o professor.
Relações comerciais
Informa a Câmara de Comércio Árabe-Brasileira que as exportações brasileiras para os países árabes totalizaram US$ 12,5 bi em 2010, crescimento de 34% em relação ao ano anterior. As importações brasileiras daqueles países fecharam 2010 com US$ 6,9 bi, uma alta de 33% sobre 2009. Dos US$ 12,5 bi das exportações brasileiras para os países árabes em 2010, destacaram-se como principais destinos: Árábia Saudita, Egito, Emirados Árabes e Argélia.
Jornal Cruzeiro do Sul. Sorocaba, 07/03/11. Por: Cida Vida.
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